O que é o Bota-Fora?

Dragagem retira lixo e lodo contaminado com óleo e metais pesados  da Baía de Guanabara

Embarcação transporta os sedimentos dragados do fundo da Baía de Guanabara AGÊNCIA O GLOBO / FERNANDO DE MORAES © 1996 - 2012. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.

 O que é o Bota-Fora?

projeto Bota-Fora, sancionado pelo governo do Estado através da SEA (Secretaria de Estado do Ambiente – RJ), atualmente permite o despejo de todo lixo, lodo e metais pesados, acumulados no fundo da Baía de Guanabara durante décadas, na frente das praias oceânicas de Niterói para que possam aumentar o calado na Baía para a entrada de navios que irão triplicar em poucos anos.

Devido à sua proximidade da costa, os pontos utilizados para o descarte até agora trouxeram danos substanciais e documentados à biota marinha, aos que vivem da pesca e aos que frequentam as praias oceânicas de Niterói.

Saiba mais sobre os perigos para a saúde da população:

Entramos em contato com a Rachel Ann Hauser Davis, Bióloga; Doutora em Química Analítica na Pontifícia Universidade Católica – Rio de Janeiro (PUC-Rio), que respondeu às nossas perguntas:

1.     Qual a sua formação?

Sou bióloga formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

2.     Qual a sua área de especialização?

Fiz mestrado e doutorado em Química Analítica na PUC-Rio com enfoque em meio ambiente, especificamente a contaminação do meio ambiente usando peixes.

3.     Você realizou um estudo sobre a contaminação dos peixes de algumas regiões e qual foi o resultado desse estudo?

Eu analisei diversas espécies ao longo dos anos, porém no caso da localidade de Itaipu analisei apenas exemplares de Tainha. Diversos exemplares apresentavam níveis de contaminação por metais acima do limite permissível pela legislação brasileira.  

Eu analisei 7 metais em aproximadamente 20 peixes: Cobre, Zinco, Cádmio, Chumbo, Níquel, Manganês e Cromo, e verifiquei que os níveis de Cromo (aproximadamente 50 % dos exemplares que eu analisei), Manganês (aproximadamente 90 % dos exemplares), Cádmio (por volta de 10 %) e Cobre (aproximadamente 7 %) estavam presentes em concentrações acima dos limites máximos permissíveis pela legislação brasileira.

Cabe ressaltar duas coisas, porém:

A – Que a legislação brasileira ainda é muito defasada com relação aos níveis permitidos de metais em alimentos. Em outros países, por exemplo, se dividem na legislação os níveis de cromo em dois tipos: Cromo +3 e cromo + 6, que são duas formas diferentes deste elemento. A forma +3 é encontrada normalmente no nosso organismo, enquanto a forma +6 é tóxica e potencialmente cancerígena. Então, lá se analisa que TIPO de cromo está disponível no peixe. No Brasil, como a legislação indica apenas Cromo TOTAL, eu analisei cromo TOTAL. Ou seja, o cromo que eu vi que está acima do limite é o total, e não diferenciei entre o cromo +3 e o cromo +6. Assim, o cromo poderia muito bem estar todo em sua forma não tóxica. Infelizmente, eu reportei como cromo total, pois é o que a legislação brasileira indica.

B – Que o número de peixes analisado ainda não é o suficiente para poder-se afirmar com certeza que todos os peixes da área estão contaminados. É um primeiro indício, estes número são apenas um indicativo preliminar da situação do ambiente, e mais estudos devem ser realizados com os peixes da área (embora já existam estudos, por exemplo, constatando que a área é sim, realmente contaminada, como eu cito abaixo).

4.     Estamos cientes do processo de dragagem da Baía de Guanabara e do descarte deste material (conhecido como BOTA–FORA) em águas próximas a nossa costa. Qual a possível relação entre tal descarte e a contaminação dos peixes desta região?

Alguns estudos realizados indicam que certas áreas próximas a Itaipu apresentam altos níveis de metais no sedimento, devido à poluição, como esgoto doméstico e também as atividades navais que ocorrem ali (portos, etc). A dragagem de material do fundo da baía de Guanabara pode realmente ressuspender os metais que estavam presos no sedimento, que, ao entrarem em contato com o oxigênio presente na água, se tornam novamente disponíveis para os organismos da área, como os peixes. É uma possibilidade grande de isto estar acontecendo, pois estudos indicam que o lodo e o sedimento de áreas próximas a Itaipu e, claro, a Baía de Guanabara, estão realmente contaminadas com metais, além de muitos outros compostos potencialmente tóxicos, como certos compostos orgânicos que não chamam muito a atenção na mídia brasileira.

5.     Quais seriam as consequências para nossa saúde ao consumirmos peixes contaminados por este tipo de material?

Os metais são tóxicos acima de certos níveis, podendo trazer diversos problemas de saúde. Alguns são cancerígenos, outros causam infertilidade, por exemplo. Porém, é importante ressaltar que uma pessoa só acumula quantidades prejudiciais de metais no organismo se consumir uma grande quantidade de peixe durante muito tempo. O Professor Reinaldo Calixto, meu orientador ao longo do doutorado e um nome importante na pesquisa relacionada a metais, tanto na PUC-Rio quanto internacionalmente, me orientou sempre a tomar muito cuidado para não sermos alarmistas, porém, nas palavras dele, “a luz amarela está acesa”. Isto que dizer que devemos criar sistemas de monitoramento a longo prazo para poder identificar as fontes de contaminação do local e tomar as medidas cabíveis para enfrentar os problemas. Como ele uma vez disse: “A sociedade tem que entender que a saúde é influenciada por muitos fatores e o custo de não cuidar disso é muito maior do que o de cuidar”.

            Existem opções para quem prefere não se expor ao risco de se alimentar de um pescado potencialmente contaminado, como por exemplo o consumo de peixes de criação, que aqui no Brasil existem em grande número, onde se controla o ambiente do peixe e se obtém um alimento de qualidade. Assim, além de estarmos consumindo um alimento de qualidade, ainda estaríamos impulsionando a economia do país.

6.     Em sua opinião, qual seria a melhor maneira de se descartar tal material retirado da Baía de Guanabara?

Não sou especialista no assunto de descartes, portanto não posso opinar com base científica, mas eu imagino que o ideal seria não dragar o lodo…

Se isto não for possível, então imagino que o descarte deveria ser feito de maneira adequada, não descartando o lodo de volta à água e realizando algum tipo de processo de retirada dos contaminantes mais presentes no lodo. Porém imagino que isto seja de custo alto, então realmente não sei qual seria a outra opção viável.

Ainda quer saber mais? Acesse o video da TV Record:

Caso você não esteja satisfeito, assim como nós, assine a Petição da Avaaz clicando aqui, coloque uma fita verde na antena ou no espelho retrovisor do seu carro e solicite um cartaz para afixar na janela do seu carro, mostrando para nossos governantes que a POPULAÇÃO está ACORDADAATENTA, e quer PRESERVAR A SUA SAÚDE, a de SEUS FILHOS e a das ÁGUAS DO MAR.

Nós acreditamos na SUA força e atuação como cidadão para mudar o cenário atual de destruição. E VOCÊ, acredita?

3 responses to “O que é o Bota-Fora?”

  1. POR ISSO QUE AS PRAIAS ESTÃO COM A AGUA IMPROPRIA !

  2. A culpa de mais este crime ambiental é da omissa, negligente Secretaria Estadual do Ambiente (SEA), da CECA e do INEA-RJ que autorizam ilegalmente o bota fora das dragagens que contém lixo e lodo contaminado com óleo e metais pesados na entrada da Baía de Guanabara poluindo as praias litorâneas, prejudicando a pesca artesanal e as atividades de mergulho assim como causando prejuízos ao turismo

  3. O dinheiro vem e vai, mas o resultado esperado não aparece.
    http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,em-20-anos-despoluicao-da-baia-de-guanabara-vira-

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